Preparar sem medo: um guia prático para tempos incertos
- Joana Feliciano

- há 4 dias
- 7 min de leitura
Vivemos num tempo em que a expressão “contexto internacional” deixou de ser algo distante. Guerras prolongadas, crises humanitárias, eventos climáticos extremos, ciberataques, inflação e instabilidade política fazem parte das notícias diárias. Tudo isto impacta cadeias de abastecimento, preços, segurança energética e sensação de previsibilidade. Mesmo vivendo num país relativamente seguro como Portugal, não estamos imunes a sismos, incêndios, cheias rápidas, ondas de calor ou falhas prolongadas de energia.
Este artigo não é um convite ao alarmismo, mas um exercício de responsabilidade: perceber o que está a mudar no mundo, o que isso significa para quem vive aqui e como cada pessoa pode criar um “kit de sobrevivência” – físico e emocional – para ganhar margem de manobra em caso de catástrofe natural ou conflito.

Contexto geopolítico e humanitário: o que está em jogo
Sem ir a todos os detalhes, há algumas linhas de fundo importantes:
Conflitos prolongados (como na Ucrânia, Sudão, Palestina/Gaza, Haiti e outros) continuam a gerar milhões de pessoas deslocadas, destruição de infraestruturas básicas e pressão sobre sistemas humanitários já sobrecarregados.
A crise climática está a tornar eventos extremos mais frequentes e intensos: secas prolongadas, mega‑incêndios, cheias repentinas, tempestades severas.
A “fadiga da ajuda” e crises económicas sucessivas dificultam o financiamento de respostas humanitárias adequadas, deixando mais comunidades “à beira do abismo”.
Este cenário global não significa que Portugal vá, de repente, transformar‑se num campo de batalha. Mas significa que vivemos num mundo mais interdependente, em que choques lá fora podem ter efeitos cá dentro: subida de preços, rupturas de abastecimento, maior pressão migratória, ameaças híbridas (ciberataques, desinformação), riscos energéticos.
Portugal: um país seguro, mas não imune
Portugal é, em termos comparativos, um dos países mais seguros do mundo. Mas segurança não é sinónimo de ausência de risco. Há três grandes grupos de ameaças a ter em conta:
Riscos naturais
Sismos (especialmente em Lisboa e Vale do Tejo, Algarve e Açores).
Cheias e inundações rápidas, em particular em zonas ribeirinhas e áreas urbanas densas.
Incêndios rurais e de interface urbano‑florestal, sobretudo no verão.
Ondas de calor cada vez mais frequentes, com impacto na saúde.
Riscos tecnológicos e infraestruturais
Falhas prolongadas de energia ou telecomunicações.
Rutura parcial de cadeias de abastecimento (combustíveis, alguns bens alimentares, medicamentos).
Riscos de segurança e geopolíticos indiretos
Efeitos indiretos de conflitos europeus e globais (energia, inflação, logística, cibersegurança).
Portugal tem planos de proteção civil, sistemas de aviso e estruturas de resposta. Mas toda a proteção civil moderna parte do mesmo princípio: nenhuma autoridade consegue estar em todo o lado, ao mesmo tempo, nas primeiras horas de uma crise. Por isso, a preparação de cada família é uma peça essencial da resiliência coletiva.
Princípios para uma preparação saudável
Antes de passar à lista de coisas para ter em casa, vale a pena alinhar alguns princípios para que isto não se transforme numa fonte de ansiedade:
Preparar é um ato de cuidado, não de medo. Não é “viver em modo apocalipse”; é aceitar que imprevistos acontecem e que algum grau de autonomia nos primeiros dias faz diferença.
Começar pequeno e ir ajustando. Não é preciso comprar tudo de uma vez. Podes ir montando o teu kit aos poucos, aproveitando promoções ou reorganizando o que já tens.
Adaptar à tua realidade. Uma pessoa que vive num T1 em Lisboa tem necessidades diferentes de uma família numa aldeia do interior. Não há solução “tamanho único”.
Rever 1 a 2 vezes por ano. Ver prazos de validade, atualizar contactos, ajustar medicação, trocar roupa conforme a estação.
Pensa nisto como montar um “plano B” para 48–72 horas em que ficas temporariamente mais por tua conta – em casa, num abrigo ou a caminho de outro local.
1.Kit de sobrevivência para quem vive em Portugal
Abaixo, uma proposta detalhada que podes adaptar. Idealmente, terias:
Um kit doméstico (para ficar em casa)
Uma mochila de emergência por pessoa (para evacuação rápida)
Extra: Kit no carro - há quem tenha um na sua própria viatura para precaver quando urgências ocorrem em deslocação
1.1. Água e alimentação

Objetivo: garantir pelo menos 2–3 dias com o essencial.
Água engarrafada: conta 2 litros por pessoa/dia (beber + mínima higiene).
Alimentos não perecíveis e fáceis de consumir:
Conservas (atum, sardinha, feijão, grão, milho).
Frutos secos, barras de cereais, bolachas simples.
Leite UHT ou bebidas vegetais de longa duração.
Arroz/massa de cozedura rápida ou instantânea.
Utensílios:
Abre‑latas manual.
Talheres reutilizáveis e uma caneca resistente.
Pequenos sacos de lixo e elásticos.
Dica: escolhe alimentos que tu e a tua família realmente comem, para poderes rodar o stock sem desperdício.
1.2. Saúde, higiene e medicação

Objetivo: tratar pequenos ferimentos, manter higiene mínima e garantir continuidade de tratamentos.
Estojo básico de primeiros socorros:
Pensos rápidos, compressas estéreis, ligaduras.
Soro fisiológico em monodoses.
Tesoura pequena, pinça, luvas descartáveis.
Desinfetante (álcool, clorohexidina ou equivalente).
Medicação:
Reserva de, pelo menos, 7 dias da medicação crónica de cada pessoa (na medida do possível).
Analgésico/antipirético de uso comum.
Antialérgico se alguém tiver alergias conhecidas.
Higiene:
Escova e pasta de dentes, sabonete, toalhitas húmidas.
Papel higiénico ou rolos de cozinha.
Pensos higiénicos/tampões/copos menstruais.
Pequeno frasco de gel desinfetante.
Se tiveres bebés, idosos ou pessoas com necessidades específicas, adapta: fraldas, fórmulas infantis, cateteres, suplementos alimentares, etc.
1.3. Energia, luz e comunicação

Objetivo: manter alguma autonomia quando falha a eletricidade.
Lanterna (idealmente de manivela ou recarregável) + pilhas extra.
Velas de segurança e fósforos/isqueiro guardados em caixa estanque (sempre usados com cuidado).
Powerbanks carregadas + cabos para telemóvel.
Rádio portátil a pilhas ou de manivela, para seguir indicações oficiais se não houver internet.
1.4. Documentos, informação e dinheiro
Objetivo: garantir identidade, acesso a serviços e contactos, mesmo com sistemas em baixo.
Cópias em papel, guardadas em bolsa impermeável, de:
Cartão de cidadão / passaporte.
Cartão de utente SNS, seguros de saúde e pólices de seguros principais.
Boletins de vacinas (especialmente crianças).
Lista escrita de contactos importantes:
Familiares, amigos de confiança, médico de família.
Escola/crèche, linha SNS 24, linha de emergência da proteção civil municipal.
Pequena quantia em dinheiro vivo (notas pequenas), para caso não haja pagamentos eletrónicos.
Se quiseres ir mais longe, podes ter também uma pen encriptada com cópias digitais de documentos importantes.
1.5. Abrigo, roupa e pequenos equipamentos

Objetivo: estar minimamente protegido do frio/calor e da chuva, com mobilidade.
Por pessoa:
Muda de roupa confortável (incluindo roupa interior e meias).
Agasalho quente + impermeável leve ou poncho.
Calçado prático, que te permita caminhar.
Para o agregado:
1–2 mantas térmicas de emergência por pessoa.
Máscaras simples (em caso de poeira, fumo ou aglomerações).
Canivete multifunções básico (dentro do permitido por lei).
1.6. Crianças, animais e bem‑estar emocional

Crises não são apenas logísticas, são emocionais. Pequenos detalhes fazem diferença.
Para crianças:
Brinquedo pequeno ou peluche preferido.
Lápis de cor e caderno, baralho de cartas, livro leve.
Para animais de companhia:
Ração para alguns dias.
Recipientes para água/comida e cópia de registo de vacinas.
Para todos:
Bloquinho e caneta (tomar notas, deixar recados, registar informações).
Para além do kit: planos e conversas
Um bom kit ajuda, mas não substitui conversas claras e simples em casa. Algumas ideias:
Definir pontos de encontro.
Um local perto de casa, caso se separem num momento de confusão.
Um contacto de “referência” fora da cidade/região, a quem todos ligam para atualizar informação.
Saber desligar.
Aprender onde estão e como desligar com segurança o quadro elétrico, o gás e a água em casa.
Conhecer os planos locais.
Ver se o teu município tem plano de emergência e que locais são previstos como pontos de abrigo.
Saber os números e sites oficiais da proteção civil e da autarquia.
Treinar sem dramatizar.
Faz, de vez em quando, um “mini‑exercício” com as crianças: se houver sismo, onde nos protegemos? Se tivermos de sair rapidamente, onde está a mochila? Explicar sempre com calma, como quem ensina a atravessar a estrada.
Agir com propósito: o que isto diz sobre nós
Preparar‑te para uma catástrofe natural ou, em cenário extremo, para os impactos indiretos de uma guerra não é sinal de pessimismo. É um gesto de responsabilidade para contigo, com quem vive contigo e com a comunidade à tua volta.
No “Agir com propósito”, esta preparação pode ser lida como extensão de tudo o que já defendes:
Cuidar de si para poder cuidar dos outros.
Tomar decisões informadas em vez de reagir apenas quando a crise já chegou.
Transformar a ansiedade difusa com “o estado do mundo” em ações concretas, proporcionais e alinhadas com a tua realidade.
Se quiseres, o passo seguinte pode ser: adaptar esta lista à tua casa, imprimir uma versão simples para afixar na cozinha ou no hall de entrada, e talvez até promover uma conversa sobre este tema na tua comunidade, escola ou organização. Preparar‑nos não garante que nada de mal aconteça – mas aumenta muito a nossa capacidade de atravessar o que vier, juntos, com mais dignidade e menos improviso.
Recursos oficiais para preparares o teu kit de emergência
Autoridades Nacionais e Locais
Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) – Site oficial com planos, alertas e guias de preparação: prociv.gov.pt
Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil – Documento de referência para riscos nacionais: apambiente.pt/plano-nacional-emergencia
ANEPC no Portal do Governo – Informações gerais e contactos: gov.pt/anepe
Guias Locais e Práticos
Câmara Municipal de Lisboa – Kit de Emergência – PDF prático com lista adaptada a sismos e cheias: lisboa.pt/kit-emergencia.pdf
Câmara Municipal de Cascais – Kit de Emergência – Recomendações locais:
Organizações de Apoio e Formação
Cruz Vermelha Portuguesa – Prevenção e Preparação – Guias para catástrofes, kits e formação: cruzvermelha.pt/socorro-emergencia
Escola Nacional de Bombeiros (ENB) – Kit de Emergência – Recursos multimédia e listas:
União Europeia e Contexto Europeu
Kit de Emergência UE (adaptado a Portugal) – Recomendações comuns:
santander.pt/salto/kit-emergencia-ue
ANEPC na Rede Europeia de Proteção Civil – Informações internacionais:
civil-protection-knowledge-network.europa.eu/anepe
Recursos Complementares
DECO Proteste – Kit de Sobrevivência – Guia prático com foco em autonomia:
Dica: Marca os favoritos no telemóvel e faz download dos PDFs para offline. Atualiza sempre com as fontes oficiais – é aí que encontras alertas em tempo real e planos municipais específicos da tua zona.
Checklist Kit de Emergência: Está tudo pronto?
Imprime, guarda na parede da cozinha ou partilha com a família. Marca com ✓ o que já tens e usa como guia para completar.
▢ ÁGUA e ALIMENTAÇÃO
Água engarrafada (2L/pessoa/dia x 3 dias)
Conservas (atum, feijão, grão, milho)
Frutos secos, barras energéticas, bolachas
Leite UHT ou alternativa vegetal longa duração
Arroz/massa cozedura rápida
Abre-latas manual
Talheres reutilizáveis + caneca
▢ SAÚDE e HIGIENE
Estojo primeiros socorros (pensos, ligaduras, desinfetante, tesoura)
Medicação crónica (7 dias mínimo)
Analgésicos/antipiréticos
Escova/pasta dentes, sabonete, toalhitas
Papel higiénico ou rolos cozinha
Máscaras + gel desinfetante
Pensos higiénicos (se aplicável)
▢ ENERGIA e COMUNICAÇÃO
Lanterna (manivela/recarregável) + pilhas
Rádio portátil (pilhas/manivela)
Powerbank carregada + cabo telemóvel
Fósforos/isqueiro em caixa estanque
▢ DOCUMENTOS e DINHEIRO
Cópias papel (CC/passaporte, utente SNS, seguros) em bolsa impermeável
Lista escrita contactos de emergência
Numerário (notas pequenas)
▢ ABRIGO e ROUPA
Muda roupa + roupa interior/meias (por pessoa)
Agasalho quente + impermeável/poncho
Calçado prático de caminhada
Manta térmica (1-2 por pessoa)
▢ CRIANÇAS, ANIMAIS, BEM-ESTAR
Brinquedo/livro pequeno (crianças)
Lápis/caderno ou cartas
Ração animais + recipientes (se aplicável)
Itens específicos (fraldas, fórmulas, óculos, etc.)
▢ PLANO FAMILIAR (não é material, mas essencial)
Ponto de encontro definido
Contacto "referência" fora da zona
Saber desligar gás/eletricidade/água
Kit guardado em local acessível e conhecido por todos
Data última revisão: _____________
Próxima revisão: _____________ (sugestão: março/setembro)
Dica final: Começa por preencher o que já tens em casa. O resto, vai completando aos poucos. Preparar é cuidar.
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