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O Panorama Humanitário Global 2025: A Matemática Cruel dos Cortes na Ajuda

  • Foto do escritor: Joana Feliciano
    Joana Feliciano
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Publicado em junho de 2025, o Global Humanitarian Overview (GHO) das Nações Unidas traz um retrato inquietante do estado do mundo: quase 300 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária urgente e proteção. O relatório, coordenado pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), denuncia como os conflitos, desastres naturais e a redução de fundos internacionais estão a colocar milhões de vidas em risco (OCHA, 2025).


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Conflitos e deslocamentos forçados em níveis recorde


As guerras e crises políticas continuam a ser o principal motor da catástrofe humanitária. Em 2024, o número de pessoas deslocadas forçadamente atingiu o recorde de 123,2 milhões — o equivalente a uma em cada 67 pessoas no mundo. Destas, 83,4 milhões estavam deslocadas dentro dos seus próprios países, um aumento de 12% face a 2023 (UNHCR, 2025).


Em 2025, os números mantêm-se alarmantes. Países como Sudão, República Democrática do Congo (RDC), Myanmar e Burkina Faso estão entre os mais afetados. Só no leste da RDC, a ofensiva do grupo M23 deslocou mais de um milhão de pessoas no início do ano. No Haiti, a violência levou a um aumento de 24% no número de deslocados internos, atingindo 1,3 milhão de pessoas (OCHA, 2025).


Insegurança alimentar e crises de sobrevivência


A fome e a desnutrição são outras marcas da crise global. Em maio de 2025, 295,3 milhões de pessoas enfrentavam insegurança alimentar aguda. Em países como Sudão, Mali, Haiti, Gaza (Palestina), Sudão do Sul e Iémen, milhões vivem à beira da fome. O relatório aponta para situações de fome catastrófica (Classificação IPC 5) em várias regiões, incluindo Gaza, onde todo o território está em risco de fome generalizada (OCHA, 2025).


Violência de género e impacto nas crianças

As mulheres e raparigas continuam a ser as mais vulneráveis. No Sudão, cerca de 12,1 milhões estão em risco de violência de género. Na RDC, estima-se que uma criança seja violada a cada 30 minutos, enquanto no Haiti a violência sexual contra menores aumentou dez vezes entre 2023 e 2024.

As crianças sofrem ainda os maiores impactos diretos da guerra: entre outubro de 2023 e maio de 2025, 50 mil crianças foram mortas ou feridas em Gaza, e abril de 2025 foi o mês mais letal para menores na Ucrânia desde o início da invasão russa (OCHA, 2025).


Catástrofes climáticas e desastres naturais

A crise climática amplifica os desafios. Dois grandes desastres marcaram o início de 2025:


  • Dois terramotos em Myanmar, em março, causaram 3.800 mortes, 51 mil feridos e deixaram quase 20 milhões de pessoas em situação de emergência humanitária.

  • Os ciclones Chido e Dikeledi, em Moçambique, afetaram mais de 700 mil pessoas e destruíram 150 mil casas, centenas de escolas e hospitais (OCHA, 2025).


Estes fenómenos naturais ocorrem num contexto global em que 2024 foi confirmado como o ano mais quente de sempre, reforçando os alertas sobre o impacto das alterações climáticas nas crises humanitárias.


A urgência de uma resposta global

O relatório sublinha uma contradição cruel: à medida que as necessidades humanitárias aumentam, os fundos disponíveis diminuem. A "matemática cruel" dos cortes na ajuda significa menos apoio em saúde, abrigo e alimentação para milhões de pessoas.

É um apelo direto à comunidade internacional: sem financiamento adequado e uma resposta global coordenada, milhões de vidas estarão em risco iminente.


Fontes

 
 
 

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