Os desafios das novas gerações na conferência do Jornal de Negócios
- Joana Feliciano

- há 6 dias
- 4 min de leitura
No dia 5 de novembro de 2025, tive a oportunidade de participar na 3.ª edição da Grande Conferência “O Poder de Fazer Acontecer”, que assinalou o 22.º aniversário do Jornal de Negócios, na Estufa Fria, em Lisboa. Integrei o painel “Desafios das Novas Gerações”, ao lado da Amélia Santos (Innuos), Mariana Gorjão Henriques, diretora da Fintech House, e da professora Cármen Fonseca (NOVA-FCSH), com moderação do Jornal de Negócios.
Falar de “novas gerações” em 2025 implica ir muito além da caricatura dos “jovens inquietos” e trazer para a conversa quem quase nunca tem microfone: os jovens refugiados e deslocados à força, que estão a crescer num mundo em mudança permanente.
Do lado do ACNUR, a realidade que levei ao painel foi clara: as novas gerações estão a herdar um mundo marcado por uma reconfiguração geopolítica profunda. No final de 2024, mais de 123 milhões de pessoas estavam deslocadas à força - quase a população do Japão. Em 2021 eram 89,3 milhões. Não é um pico, é uma tendência.
Por detrás dos números há histórias que não saem das notícias, mas que raramente têm tempo de antena suficiente: o Sudão tornou‑se a pior crise de deslocamento do mundo; em Gaza, cerca de 90% da população foi forçada a fugir; na Ucrânia, milhões continuam deslocados. Crises no Afeganistão, na República Democrática do Congo, no Haiti ou em Mianmar seguem, muitas vezes, fora do radar mediático.
As novas gerações estão a crescer no meio de crises sobrepostas: conflitos prolongados, desigualdades profundas, emergência climática, digitalização acelerada e desinformação. Mas há um traço que as distingue de gerações anteriores: nasceram globais e hiperconectadas. Sabem que o que acontece “do outro lado” tem impacto no seu próprio futuro. Isso reflete‑se na forma como se mobilizam - pela justiça climática, pelos direitos humanos, pelo acolhimento de quem foge da guerra. Não se limitam a assistir; procuram participar na resposta.

Quando partilhei como tínhamos vivido este último ano no ACNUR, a palavra que me veio à cabeça foi “pressão”. Pressão pelo aumento de fluxos - Sudão, Afeganistão, Ucrânia, entre outros —, pressão pelos cortes de financiamento, pressão pela complexidade logística de operar em mais de 130 países.
Mesmo assim, mantivemos o foco naquilo que é essencial: proteger vidas, reforçar respostas de emergência e apoiar governos a incluir refugiados e apátridas nos sistemas nacionais e nos planos de desenvolvimento. A ação humanitária não é apenas “chegar com ajuda e partir”; é, cada vez mais, trabalhar para soluções de longo prazo, integração socioeconómica e reconstrução de futuro.
Nos últimos anos, notou‑se também uma mudança de paradigma:
Passámos de respostas puramente emergenciais para abordagens de integração local e desenvolvimento.
A digitalização trouxe identidades digitais, educação à distância, inclusão financeira via telemóvel.
E, talvez o mais importante, começámos a envolver mais jovens refugiados nas decisões.
Levei um ponto que considero fundamental: hoje, o ACNUR procura não falar apenas sobre jovens refugiados, mas falar com eles. Em consultas, fóruns e projetos de cocriação, ouvimo‑los sobre prioridades, soluções e expectativas. Não é perfeito, mas é um passo essencial para que deixem de ser apenas “beneficiários” e passem a ser coconstrutores de soluções.
Outro tema para o qual tinha preparado uma partilha que não chegou a ser abordado em palco, mas o qual gostaria de trazer aqui, é: a inovação.
O refúgio é, em si, uma experiência forçada de reinvenção. Quem perde casa, país, rede de apoio e, muitas vezes, documentos, tem de reconstruir tudo. Isso exige exatamente aquilo que admiramos nos empreendedores: resiliência, criatividade, capacidade de resolver problemas com poucos recursos e pensar de forma sistémica.
Existe a necessidade de criar ecossistemas inclusivos onde também o talento refugiado possa inovar: acesso a financiamento de impacto, mentoria, redes, apoio jurídico, programas de aceleração pensados para realidades diversas. Algo que vemos crescer dentro do ACNUR: laboratórios de inovação (“innovation labs”) onde jovens refugiados desenvolvem soluções locais para desafios muito concretos, como acesso à energia, saúde ou educação.
No final, o que levo deste painel é, sobretudo, um reforço de convicção: os grandes desafios das novas gerações são inegáveis, mas o seu potencial de transformação também.
No trabalho com o ACNUR, vemos todos os dias jovens que, em contextos de perda e incerteza extremos, escolhem recomeçar. Jovens que cruzam fronteiras não apenas geográficas, mas emocionais e sociais. Jovens que transformam empatia em ação — seja em campos de refugiados, seja em escolas, empresas ou comunidades locais.
Se há algo que este evento me confirmou é isto: o verdadeiro poder de “fazer acontecer” não está só em quem sobe ao palco, mas em quem, muitas vezes longe dos holofotes, insiste em reconstruir, incluir, acolher e inovar. Estamos a assistir a uma democratização da solidariedade — menos concentrada em elites, mais distribuída, mais digital, mais participada.
E é aí, nesse cruzamento entre empatia, ação e responsabilidade partilhada, que vejo o futuro das novas gerações. Não como um problema a gerir, mas como uma força a escutar, envolver e, sobretudo, não subestimar.
Ler a cobertura sobre o painel de debate no Jornal de Negócios aqui
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